Com o desafio de conciliar descarbonização e desenvolvimento econômico, cresce a expectativa sobre os compromissos que serão assumidos pelo Brasil durante a COP30
A Coalizão para a Descarbonização dos Transportes, que reúne mais de 50 organizações do setor, apresentou um plano de ação com potencial de reduzir em 70% as emissões de CO₂ do setor até 2050. Estima-se, pelo menos, a atração de R$ 600 bilhões em investimentos verdes para tirar do papel as propostas da iniciativa.
Esse movimento é fruto de uma articulação coliderada pela Motiva, em parceria com o CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), a CNT (Confederação Nacional do Transporte) e o Observatório Nacional de Mobilidade Sustentável, como resposta a uma provocação do embaixador André Corrêa do Lago, hoje presidente da COP30, para a construção de consensos sobre estratégias de mitigação e adaptação do setor às mudanças climáticas. O chamado virou a Coalizão, que elaborou um documento com 90 ações para descarbonização, chamadas de “alavancas”.
O plano da Coalizão, lançado em Brasília em maio de 2025 em evento com a presença do embaixador Corrêa do Lago, mapeou os dados primários de emissões por modal, construiu um baseline setorial até 2050 e organizou as propostas em seis frentes: transporte rodoviário, ferroviário, aquaviário, aéreo, mobilidade urbana e planejamento transversal.
A presidente do Instituto Motiva, Renata Ruggiero, aponta três dessas alavancas como cruciais para uma transformação sustentável: a diversificação da matriz de transporte, com aumento da participação de ferrovias e hidrovias na logística brasileira; a expansão do uso de biocombustíveis, como etanol, biodiesel e SAF (Combustível Sustentável de Aviação); e os investimentos em eletrificação da frota. “Estas são as iniciativas que mais contribuem em termos de redução das emissões do setor de transporte”, disse, destacando que, juntas, têm potencial de responder por até 60% da redução de CO₂ pretendida.
Para cada uma dessas frentes, o documento elenca metas, como atingir 50% da frota de leves eletrificada, colocar 300 mil ônibus elétricos em circulação e ampliar o uso de SAF no transporte aéreo. “O resultado virá da combinação dessas soluções, apoiadas também por medidas de eficiência, como renovação de frotas e melhor infraestrutura logística”, explicou a presidente do CEBDS, Marina Grossi. “A descarbonização do transporte no Brasil é viável e já temos caminhos bem definidos”, completou.
Para o diretor adjunto nacional do Sest Senat e líder do projeto Transporte e a COP30, Vinicius Ladeira, o documento apresentado pela Coalizão tem um peso político significativo, pois “o setor foi o primeiro a entregar um conjunto consolidado de propostas com caráter técnico e apoio de entidades, inclusive com interesses divergentes”. Esse aspecto, acrescenta, deixa claro como a agenda das mudanças climáticas já é considerada variável estratégica na tomada de decisões de infraestrutura.
“Em ano de COP30 no Brasil, temos um compromisso ainda maior com a preservação do meio ambiente. O país tem todas as condições para comandar esse debate, e nossas associadas estão 100% comprometidas com esse objetivo”, acrescentou o CEO da MoveInfra, Ronei Glanzmann, movimento que reúne os seis maiores grupos de infraestrutura de mobilidade do país.
A proposta é que o plano de ação da Coalizão seja incorporado ao debate regulatório e político, com contribuições efetivas à agenda climática nacional. Atualmente, o trabalho tem contribuído para formulação das ações de descarbonização do setor de transportes no Plano Nacional sobre Mudança do Clima, a ser apresentado pelo governo federal na COP30.
Investimentos
Só a expansão ferroviária, por exemplo, deve movimentar mais de R$ 270 bilhões; os biocombustíveis, cerca de R$ 225 bilhões; e a infraestrutura de recarga de veículos leves, mais de R$ 40 bilhões, como observa Marina Grossi, do CEBDS. Para viabilizar esses recursos, acrescenta, “a participação do capital privado é imprescindível”. As apostas estão em mecanismos como concessões e repactuações de contratos, o novo marco legal das ferrovias e programas de financiamento setoriais, como o Refrota, voltado a ônibus elétricos.
Ampliar o programa de concessões tem sido identificado como ferramenta importante para atração de investimentos, mas também para a redução de emissões, destacou o diretor-presidente da ABCR (Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias), Marco Aurélio de Barcelos. “Nas rodovias, as concessões ajudam a reduzir emissões ao melhorar o pavimento, aumentar a fluidez de tráfego e evitar frenagens desnecessárias. Projetos como ofree flow e a pesagem em movimento reforçam esse efeito, além de preservar a vida”, disse.
Nesse cenário, cresce a importância de instrumentos como títulos verdes e empréstimos sustentáveis para financiar investimentos. No ano passado, por exemplo, a Motiva emitiu debêntures de transição verde pela concessão da RioSP (rodovias Presidente Dutra e BR-101/RJ/SP), junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), marcando a primeira operação do tipo no mercado brasileiro. Ao mesmo tempo, uma série de medidas têm sido implementadas pela concessionária para tornar as vias mais verdes, como a instalação de lâmpadas LED mais eficientes e o reuso de asfalto já existente nas obras de ampliação.
A presidente do CEBDS também reforçou a necessidade de inserir o setor privado em políticas de incentivo, fomentando pesquisa, estruturando operações de financiamento sustentável e participando ativamente de programas nacionais. “A adoção de SAF na aviação, o avanço da mobilidade elétrica e o desenvolvimento da cadeia do hidrogênio dependem dessa colaboração.”
Desafios
O setor de transportes responde por aproximadamente 11% das emissões brutas nacionais de dióxido de carbono, sendo 90% delas provenientes do modal rodoviário. Isso faz com que, no horizonte até 2050, um dos aspectos mais desafiadores seja a adequação dessa infraestrutura a lógicas sustentáveis.
“O reequilíbrio da matriz de transportes é um dos principais pontos do documento e um dos mais complexos no longo prazo. Hoje, entre 65% e 68% do transporte de cargas no Brasil é feito por rodovias. Para ser eficiente, é preciso que todos os modais funcionem de forma harmônica”, comentou Vinicius Ladeira.
Dentro da perspectiva da intermodalidade, o estudo defende o avanço do transporte ferroviário e do aquaviário, passando de uma participação de 31% para 55% da matriz de carga. Na mobilidade urbana, também se propõe o crescimento do transporte sobre trilhos (metrôs e VLTs), ampliando a integração entre modais.
Enquanto isso, a eletrificação da frota traz lacunas estruturais. “A eletrificação exige a criação de uma infraestrutura totalmente nova em larga escala. Estimamos que, até 2050, o Brasil precisará instalar entre um milhão e quase dois milhões de pontos de recarga, além de desenvolver tecnologia adequada para veículos pesados e consolidar a cadeia do hidrogênio”, observou Marina Grossi.
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