Plano de reestruturação prevê redesenho da malha, alienação de ativos e investimentos em automação e frota; participação da estatal no mercado de encomendas recuou de 51% para 22%
Os Correios anunciaram, no fim de dezembro, a captação de R$ 12 bilhões em crédito como parte do Plano de Reestruturação 2025–2027. A iniciativa integra a primeira fase do plano e tem como objetivo assegurar liquidez, reorganizar a operação logística e viabilizar investimentos estruturais previstos a partir de 2027.
O anúncio foi feito pelo presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, durante entrevista coletiva realizada na sede da empresa, em Brasília (DF). Do total captado, R$ 10 bilhões têm desembolso previsto até 31 de dezembro de 2025, e R$ 2 bilhões até 30 de janeiro de 2026. Segundo a estatal, os recursos serão direcionados à normalização do fluxo financeiro, à quitação de obrigações em atraso e à recomposição da capacidade operacional. A captação faz parte da fase 1 do plano, voltada à estabilização emergencial, após diagnóstico que apontou déficit estrutural superior a R$ 4 bilhões anuais, patrimônio líquido negativo de R$ 10,4 bilhões e prejuízo acumulado de R$ 6,057 bilhões até setembro de 2025, além de impactos nos indicadores de liquidez e desempenho operacional.
Rede Logística e Gestão de Ativos
Entre as medidas estruturais em andamento, os Correios informaram a alienação de imóveis sem uso operacional, após revisão da carteira imobiliária. A expectativa é gerar cerca de R$ 1,5 bilhão em receitas extraordinárias. A iniciativa também prevê a redução de despesas associadas à manutenção de ativos e a racionalização da infraestrutura logística. O plano inclui ainda o redesenho da rede de atendimento e das operações, com otimização da malha logística e o fechamento de aproximadamente 1 mil unidades, sem impacto na universalização do serviço postal, segundo a empresa. A estimativa é de economia anual de R$ 2,1 bilhões com a reorganização da rede.
Estrutura de Custos e Força de Trabalho
Outra frente prevista é a reabertura do Programa de Demissão Voluntária (PDV) a partir de janeiro de 2026, com potencial de adesão de até 15 mil empregados entre 2026 e 2027. A economia anual estimada é de R$ 2,1 bilhões, com impacto pleno a partir de 2028. O plano contempla ainda a revisão de cargos de média e alta remuneração, além de ajustes nos planos de saúde e previdência. Segundo dados apresentados pela empresa, cerca de 90% das despesas dos Correios são fixas, sendo mais de 60% relacionadas à folha de pagamento.
Investimentos em Automação, Frota e Infraestrutura Logística
Na fase de crescimento, os Correios preveem investimentos de R$ 4,4 bilhões entre 2027 e 2030, com financiamento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB/Brics). Os recursos serão direcionados à automação de centros de tratamento, renovação e modernização da frota, descarbonização das operações, modernização da infraestrutura de tecnologia da informação e redesenho da malha logística. O plano também prevê parcerias com o mercado e a diversificação de atividades, com atuação em e-commerce, última milha, logística especializada em saúde, integração internacional e agronegócio, além de serviços financeiros e seguros. A projeção apresentada é de geração de mais de R$ 8 bilhões em receitas adicionais até 2029. A fase 2, prevista para o período de 2026 a 2027, concentra medidas de reorganização operacional, aumento de eficiência e disciplina de custos. A fase 3, a partir de 2027, prevê a revisão do modelo organizacional e societário dos Correios, com adequação ao ambiente concorrencial do setor de logística.
Participação no Mercado de Encomendas
Os Correios atuam no segmento de logística e entrega de encomendas no Brasil e são responsáveis pela atividade postal nacional. A empresa pública está presente em 100% dos municípios brasileiros e opera uma rede com mais de 10 mil agências, cerca de oito mil unidades operacionais, 23 mil veículos e aproximadamente 80 mil empregados diretos, conforme informações institucionais divulgadas pela estatal.
No segmento de encomendas — que inclui entregas associadas ao comércio eletrônico e à distribuição de pacotes em âmbito nacional — a participação de mercado dos Correios apresentou redução ao longo dos últimos anos. De acordo com o Relatório Integrado 2023, o indicador “Market Share — Encomendas”, utilizado pela empresa para mensurar sua participação no volume total de encomendas distribuídas no país, foi de 31% em 2023.
Dados apresentados pelos próprios Correios no diagnóstico que embasa o Plano de Reestruturação 2025–2027 indicam que a participação da estatal no mercado de encomendas recuou de 51% em 2019 para 22% nos anos mais recentes. Em entrevista à Bloomberg Línea em 2023, o sócio-diretor do Instituto ILOS, Maurício Lima, comentou sobre a posição histórica dos Correios no segmento de entregas vinculadas ao comércio eletrônico. Segundo ele, “há dez anos, a participação dos Correios nas entregas do e-commerce era de 80%, mas a empresa perdeu muito ao longo dos anos”, em análise sobre as mudanças no setor logístico brasileiro.
Fonte: Mundo Logística