Proposta pode trazer efeitos como a elevação dos custos, ampliação da escassez de mão de obra e mais automação no setor
A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou a admissibilidade de propostas de emenda à Constituição (PECs) que preveem o fim da escala de trabalho 6×1 e a redução da jornada semanal para até 36 horas. A medida ainda precisa avançar na tramitação, mas já mobiliza e traz debates para setores como transporte, logística e indústria.
A eventual mudança tende a exigir reconfiguração de turnos e aumento de equipes para manter o nível de operação, especialmente em atividades contínuas como transporte rodoviário e centros de distribuição. Dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) indicam que a mão de obra representa entre 30% e 40% dos custos no transporte rodoviário de cargas. Nesse cenário, a redução da jornada sem ganhos de produtividade pode pressionar margens e elevar o custo do frete.
Impactos no setor
O impacto tende a ser mais crítico em nichos já pressionados pela falta de profissionais qualificados. No transporte de produtos perigosos, por exemplo, empresas operam com déficit de motoristas, o que limita a capacidade operacional. Segundo a Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos, há transportadoras que hoje estão com 50 motoristas a menos do que o necessário para completar o quadro e a necessidade de ampliar equipes para compensar a redução da jornada esbarra na dificuldade de encontrar profissionais habilitados para operações especializadas.
Dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) indicam que cerca de 49 mil transportadoras atuam no transporte de produtos perigosos, dentro de um universo de aproximadamente 153 mil empresas — o que reforça o alcance sistêmico das mudanças.
No transporte rodoviário, responsável por cerca de 65% da movimentação de cargas no país, a redução da jornada pode exigir ampliação de equipes e reconfiguração de turnos, com impacto direto sobre custos e disponibilidade de motoristas. Nesse contexto, a tendência é de aceleração de investimentos em automação, digitalização e reorganização operacional.
Com a logística presente em praticamente todas as cadeias produtivas, aumentos de custo no transporte tendem a se espalhar pela economia, com potencial impacto sobre inflação e competitividade industrial. Para representantes do setor produtivo, a mudança exige abordagem segmentada e maior diálogo com as empresas. “Não dá para impor uma regra única para atividades tão diferentes. Existem operações em que simplesmente não é viável”, afirma a Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos.
Fonte: Transporte Moderno