Surdos na estrada: inclusão que ganha força

Dirigir caminhão é um sonho que atravessa gerações e move muitos brasileiros

Entre os motoristas surdos, esse desejo é o mesmo. A diferença, são os obstáculos no caminho. Mesmo com a legislação permitindo que pessoas com deficiência auditiva obtenham habilitação nas categorias profissionais, o preconceito e a falta de preparo institucional ainda dificultam o acesso desses profissionais ao mercado de trabalho.

Enquanto isso, projetos e iniciativas de inclusão vêm ganhando força para derrubar barreiras, ampliar oportunidades e mostrar que, embora dirijam em silêncio, esses caminhoneiros têm a mesma paixão, competência e responsabilidade de qualquer outro na estrada.

Projetos como o Caminhoneiros Surdos do Brasil, idealizado por Raquel Moreno, mostra que a surdez não é um impedimento para a condução segura. Com treinamento, comunicação visual e vontade de aprender, esses profissionais têm mostrado que competência não se mede pelo ouvido e sim pela dedicação e olhar atento na estrada.

frente dessa luta está Raquel Moreno, idealizadora do projeto Caminhoneiros Surdos do Brasil, uma iniciativa que busca ampliar as oportunidades e derrubar tabus dentro e fora das transportadoras. “Nosso objetivo é incluir motoristas surdos no mercado de trabalho. Hoje a lei já garante esse direito. Existe também um projeto de lei em tramitação no Senado (PL 2634/21) que busca ampliar ainda mais essa inclusão”, explica Raquel.

Ainda em processo de formalização como instituição, o projeto já atua de forma ativa em todo o país, oferecendo apoio e orientação a motoristas que enfrentam dificuldades nos Detrans ou junto às empresas de transporte.

Segundo Raquel, a legislação atual determina que o candidato à CNH profissional pode ter, no máximo, 40 decibéis de perda auditiva no melhor ouvido. O caminho até a habilitação não é simples e alguns fatores impedem os candidatos de concluírem o processo.

“O preconceito é o principal. Muitos questionam como o motorista surdo vai ouvir o pneu estourando ou até mesmo a sirene da ambulância? Mas, vale lembrar que o surdo é extremamente visual. Ele percebe a vibração de um pneu estourado, enxerga a ambulância pelo retrovisor. A limitação não impede a direção segura”, explica.

Ela relata que um dos maiores entraves está nos órgãos de trânsito. Mesmo que o candidato passe em todos os exames, muitas vezes não é aprovado por falta de preparo. “Tem surdo que não consegue sequer passar da recepção por não haver profissionais que se comunicam em libras. Muitas vezes eu mesma faço videochamadas para intermediar a comunicação entre o médico e o candidato.”

Mas, apesar das dificuldades Raquel acredita em um caminho de maior inclusão. “Hoje estimamos que existam mais de 50 caminhoneiros surdos habilitados no Brasil, mas apenas cerca de 10% realmente estão trabalhando. A maioria que atua profissionalmente tem caminhão próprio. “Temos também relatos de empresas que contrataram motoristas surdos e consideram seu desempenho excelente.”

Para ela, o caminho para ampliar a inclusão passa pela informação e sensibilização das empresas e dos órgãos públicos. “Falta conhecimento e sensibilização. Quando conseguimos apoio político, como o envio de ofícios aos Detrans, a aprovação de candidatos aumenta. Também precisamos conscientizar transportadoras de que o surdo pode, sim, ser um bom motorista e até ajudar a suprir a escassez de profissionais no setor.”

Para Raquel, o futuro do transporte depende de um olhar mais humano e acessível. “A inclusão, diz ela, é um caminho sem volta e uma oportunidade de mostrar que a competência de um motorista vai muito além da audição”, disse.

Mesmo com a legislação brasileira permitindo que pessoas surdas obtenham habilitação profissional e dirijam caminhões, a presença desses motoristas nas transportadoras ainda é rara. Na visão de Sílvio Kasnodzei, presidente do SETCEPAR (Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas no Estado do Paraná), o principal entrave é o desconhecimento.

“O que ainda impede o avanço da inclusão é a falta de informação sobre como se dá, na prática, a atuação desses profissionais. Muitas empresas têm dúvidas quanto às adaptações necessárias e ao impacto na segurança operacional, o que gera cautela no momento da contratação”, explica.

Segundo ele, embora o preconceito ainda exista em alguns casos, a resistência das transportadoras está mais relacionada a questões técnicas do que a julgamentos pessoais.

“Os fatores predominantes são as dúvidas sobre segurança e integração operacional. Com mais conhecimento e orientações claras, essas barreiras tendem a ser reduzidas, explicou.

Fonte de informações: Portal O Carreteiro 

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