Com R$ 1,225 trilhão previstos, entidade do transporte expõe a necessidade de transformar integração modal em política de Estado
O novo Plano Nacional de Logística (PNL) 2050 recoloca a integração dos diferentes modais entre as prioridades para o desenvolvimento da infraestrutura brasileira nas próximas décadas. Lançado em agosto, o planejamento prevê R$ 1,225 trilhão em investimentos até 2050, sendo R$ 734,4 bilhões da iniciativa privada e R$ 490,5 bilhões do setor público, além de estabelecer 31 eixos prioritários de transporte para orientar a expansão e a melhoria da rede nacional.
A proposta chega diante de um desafio que acompanha a infraestrutura brasileira há décadas: transformar planos de longo prazo em mudanças estruturais na matriz de transportes. O PNL 2035, aprovado em 2021, já previa maior equilíbrio e integração entre os modais, mas auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU) apontaram fragilidades relacionadas à governança, definição de metas, análises preliminares de custo-benefício e alinhamento entre o planejamento e determinadas decisões de investimento.
Para a Fundação Memória do Transporte (FuMTran), o histórico brasileiro mostra que o problema não está necessariamente na ausência de diagnósticos, mas na dificuldade de garantir continuidade às estratégias definidas. A necessidade de integração ganha relevância em uma matriz na qual mais de 54% da movimentação de cargas está concentrada no transporte rodoviário, enquanto ferrovias respondem por 27% e o modal aquaviário, por 19%, segundo dados da Infra S.A. divulgados pelo Ministério de Portos e Aeroportos. Essa configuração reflete um processo histórico de desenvolvimento pouco articulado entre os modais, agravado por mudanças de prioridades, restrições orçamentárias e dificuldades de coordenação, fatores que, na visão da FuMtran, ainda limitam a formação de corredores logísticos verdadeiramente integrados.
“Mais do que elaborar um bom plano, será necessário estabelecer metas mensuráveis, critérios técnicos de priorização, governança permanente e acompanhamento dos resultados. A experiência mostra que planejamento e investimento precisam caminhar juntos. Caso contrário, corre-se o risco de termos boas diretrizes que não se convertam, na velocidade necessária, em infraestrutura e conexões logísticas”, destaca Antonio Luiz Leite, presidente da FuMTran.
Integração redefine papel de cada modal
Uma matriz mais equilibrada não significa substituir o transporte rodoviário, mas utilizar cada modal nas operações em que apresenta maior eficiência. Ferrovias e hidrovias possuem maior capacidade para movimentar grandes volumes em longas distâncias, enquanto o caminhão mantém papel decisivo na distribuição regional e na conexão entre áreas produtivas, terminais, portos, ferrovias e centros consumidores. Segundo a entidade, a integração não reduz a relevância do transporte rodoviário de cargas. Pelo contrário, permite que ele atue de forma mais estratégica dentro da cadeia logística. O caminhão continuará indispensável, principalmente pela flexibilidade e pela capacidade de chegar a praticamente a todos os pontos do território.
Para a FuMTran, o PNL 2050 representa uma oportunidade de enfrentar uma questão que atravessa diferentes períodos da história da infraestrutura brasileira. “Daqui até a 2050, o principal legado não deverá ser apenas quantos quilômetros de rodovias ou ferrovias foram construídos, mas o quanto o Brasil conseguiu conectar seus diferentes sistemas de transporte. Esse é o passo necessário para transformar planejamento de longo prazo em uma logística mais eficiente e competitiva”, ressalta a entidade.
Fonte: Fundação Memória do Transporte (FuMTran)